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Título: Conversão dos Cativos
Subtítulo: Povos Indígenas e Missão Jesuítica
Assunto: Missão jesuítica na América do Sul, cultura e religião gurani e tupi-guarani
Ano: 2009
Autores/as: Paulo Suess, Bartomeu Melià, José Oscar Beozzo, Benedito Prezia, Graciela Chamorro, Protásio Langer
Apresentação: Leszek Lech
Formato: 14x21
Número de páginas: 150
Editora: Nhanduti
Edição: 1
ISBN: 9788560990061
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Paulo Suess, Bartomeu Melià, José Oscar Beozzo, Benedito Prezia, Graciela Chamorro, Protásio Langer

Conversãos dos Cativos. Povos indígenas e missão jesuítica

A partir de sua convivência com os Tupinambá, Anchieta tinha boas condições de conhecê-los em sua originalidade, mas poucas possibilidades de reconhecê-los em sua alteridade. Não podemos cobrar-lhe leituras antropológicas e chaves hermenêuticas do século 21, como tampouco podemos cobrar dos discípulos de Jesus de Nazaré a cosmovisão heliocêntrica de Copérnico. Mas, como a navegação não dependia de Copérnico, o reconhecimento da alteridade tampouco dependeu de escolas antropológicas modernas. Em todas as épocas encontramos pessoas que romperam com o cerco etnocêntrico de suas tradições e com plausibilidades culturais destrutivas. (Paulo Suess. A Catequese nos primórdios do Brasil, 38)

A opção de Nóbrega é clara e de um cru realismo. Falando humanamente e não do ponto de vista ideal e muito menos religioso, o único caminho que restava – aceitando-se que a conversão devia processar-se dentro do sistema colonial eescravista, indo de par com a dominação política e econômica – era o de impor igualmente a conversão à força. Passa a propor a guerra justa contra os indígenas, como caminho real, para consolidar politicamente a colonização e a catequese e resolver os problemas econômicos, assegurando o abastecimento regular e legalizado da mão de obra indígena para os engenhos e fazendas. (José Oscar Beozzo. O Diálogo da Conversão do Gentio, 73)

O estabelecimento da missão dos Maromomi foi, de certa forma, um ganho para a colônia portuguesa. O jesuíta Fernão Guerreiro escrevia na época: “Os Maromomins antes eram contra os Portugueses; e depois, com a intervenção dos Padres, têm igrejas e ajudam os brancos”. Se o aldeamento correspondeu a uma expectativa da colônia – pacificação indígena –, frustrou o projeto missionário que acreditava que as missões seriam um refúgio para as comunidades indígenas contra a escravização reinante. [...] Frente à escravização, os Maromomi tiveram três atitudes: aceitar como um mal inevitável, reagir de forma violenta ou fugir para o sertão. (Benedito Prezia. Nossa Senhora da Conceiçãos dos Guarulhos, 102.104)

A história dos guaranis constrói, nesse tempo, a sua própria visão sobre temas essenciais; uma mentalidade que lhes é tão própria que os portugueses e os espanhóis não a entendem. Curiosamente, ela é endossada aos jesuítas, embora estes, por sua vez, tenham também uma enorme dificuldade em compreendê-la. Não obstante, adivinham que seja justa e suspeitem seja acertada. Os guaranis dizem e escrevem que outra colônia é possível. Na sua língua, a história é outra. [...] Essas histórias [a documentação escrita em guarani] nos obrigam a sairmos do nosso centro; a leitura excêntrica dessas fontes leva-nos, como um redemoinho de vento em movimento concêntrico, ao centro de uma nova história, na qual já não poderá faltar a voz e o eco guarani. (Bartomeu Melià. Escritos guarani como fontes, 138.142)

 Mas se os povos chamados guarani não sucumbiram, foi graças a essa ‘ferocidade’ que lhes abriu caminho para a liberdade. Nada podia ser mais incompatível com uma missão que tinha em vista a suplantação do ser indígena do que a ferocidade, a agressividade, a altivez, a atitude inquiridora dos catecúmenos. Não é casual que uma das expressões-chave para descrever a conversão indígena seja pochy ekuavog, que significa diretamente ‘esvaziar-se da ira’, ‘perder coragem’. Quem se reduzia ao cristianismo devia despir-se, esvaziarse dessa ‘ira’ e dessa ‘coragem’. Estamos diante de uma forma de criminalização da resistência. (Graciela Chamorro. Sentidos da conversão de indígenas, 123)

 A luta contra as idolatrias do Novo Mundo, o disciplinamento e a conversão das almas dos indígenas, a universalidade do catolicismo, a parusia e o Juízo Final são temas constantes e encadeados que tornam as cartas geográficas documentos eloqüentes do pensamento político/teológico que fundamentou a conquista espiritual da América. As imagens da luta dos anjos jesuítas contra o demônio, dos indígenas convertidos e contritos ao pé da cruz, da Companhia de Jesus enquanto difusora do catolicismo pelo mundo afora, assim como os textos e gravuras que conclamam operários para a messe afluem para a concreção de um tempo final, para uma dimensão teleológica da história humana. (Protásio Langer. Cartas geográficas edificantes, 82.89)

 

Apresentação

Tenho a honra de apresentar a publicação que joga luz sobre os fatos históricos relacionados tanto com as atividades missionárias jesuíticas entre os povos indígenas das terras baixas sul-americanas, como com a reação dos ameríndios frente ao avanço de tradições culturais alheias. Este livro é resultado das contribuições de Paulo Suess, José Oscar Beozzo, Benedito Prezia, Graciela Chamorro, Protásio Langer e Bartomeu Melià, historiadores e etnólogos, mas também teólogos e pessoas de fé que, continuamente e cada um à sua maneira, descobrem e fortalecem a presença divina nas comunidades humanas latino-americanas. O marco cronológico dos escritos abrange a época das missões jesuíticas até os acontecimentos decorrentes da expulsão dos jesuítas em 1759 do Brasil e em 1768 da Espanha e dos seus territórios. Enfoca, portanto, os primórdios dos Estados modernos formados posteriormente nas terras baixas sul-americanas.

Paulo Suess, em seu artigo A catequese nos primórdios do Brasil. Piratininga revisitado, descreve as atividades missionárias realizadas a partir do Colégio de São Paulo de Piratininga no início da sua história. O autor analisa os fatos históricos da colonização, o contexto sócio-cultural da época e a razão missionária dos jesuítas – pioneiros entre os povos nativos. A reflexão propiciada pelo autor objetiva, entre outros, “romper com o silêncio proibitivo que faz dos desacertos da ‘conquista espiritual’ um tabu”, e criar uma “consciência crítica”.

José Oscar Beozzo, com base no documento O Diálogo da Conversão do Gentio, de Pe. Manuel da Nóbrega SJ, escreve um artigo intitulado A evangelização entre a persuasão e a força. Ao longo de um estudo minucioso do documento elaborado no contexto da crise da missão jesuíta entre os nativos, percebida pelos missionários como “trabalho em vão”, o autor destaca o dilema entre abandonar o caminho missionário de persuasão e acolher o método da conversão pela força. Em sua interpretação crítica, não hesita em mostrar a postura contraditória de Nóbrega e de Anchieta de considerar a escravização dos nativos imprescindível para assegurar a evangelização.

Protásio Langer traz a proposta de interpretar a conotação teológico-catequética, política e ideológica em Cartas geográficas edificantes: o imaginário da conversão dos povos indígenas nos mapas dos jesuítas Heinrich Scherer e Samuel Fritz. Ao examinar os detalhes imagéticos dos mapas publicados na Europa, o autor percebe que, entre outros, eles tinham o propósito de edificar, ou seja, de divulgar o trabalho da Companhia de Jesus entre as pessoas de fora, e de ajudar a atrair novos membros e missionários à causa da conversão dos indígenas. Mas, acima de tudo, a riqueza desses documentos está na imagética que expressa diversos âmbitos e anseios projetados sobre as populações nativas.

Benedito Prezia oferece um artigo comovente: Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos: A frustrada missão entre os Maromomi. Após uma breve descrição de características próprias da tribo, o autor prossegue com a história do seu aldeamento na missão, sua “pacificação” e, finalmente, seu paulatino extermínio em fuga, caça e escravização. A conclusão dessa análise nítida e perspicaz das ações efetuadas por portugueses no contexto político, social e eclesiástico daquela época, que resultaram em destruição, convoca a construir “uma sociedade que respeite as minorias e que acabe com todas formas de escravização”.

Graciela Chamorro, a partir dos registros de transformações na língua guarani, reflete no artigo Sentidos da conversão de indígenas nas terras baixas sul-americanas. Uma aproximação lingüística sobre o impacto do imperativo da conversão em povos indígenas. Baseia-se nas fontes montoyanas que logo são comparadas com os dados do catecismo limense e com o material catequético escrito por José de Anchieta. A autora brinda o leitor com uma análise lingüística sobre a conversão que a leva a concluir que a língua indígena não era só um meio de tradução do ideário cristão. Apesar de se transfigurar, ela continuou sendo indígena e, ao ser agora examinada, testemunha o nascimento de novas identidades indígenas e de processos de indigenização do outro.

Bartomeu Melià apresenta Escritos guarani como fontes documentais da história rio-platense, sustentando a idéia de que a língua guarani escrita “fazia história e escrevia história” não apenas nas próprias missões jesuíticas com finalidades catequéticas, mas também como língua diplomática e como um meio de comunicação entre os próprios indígenas. Esses e outros documentos são exemplos de uma postura de resistência dos guaranis frente à invasão política, cultural e religiosa, e testemunham a existência de uma história dos guaranis que “constrói sua própria visão sobre temas essenciais; uma mentalidade que [...] os portugueses e os espanhóis não entendem [...] e os jesuítas têm uma enorme dificuldade em compreendê-la”.

Sem dúvida as aproximações reunidas no livro Conversão dos cativos contribuem com ricos subsídios para a reavaliação do passado (com suas mazelas e preconceitos), mas também para descobrir e para saborear as riquezas culturais e as experiências históricas de nossos povos indígenas. O livro ilumina também o desafio vigente de lutar pela edificação de uma sociedade mais justa, pluralista e solidária que defende a vida de tantos de nossos irmãos e irmãs indígenas ameaçados, e que propicia um autêntico diálogo entre indígenas e instituições nacionais e eclesiais.

Leszek Lech (Editor)

 

R$ 47,00